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  • camilacaputti

Ser Mulher no Brasil...

Texto escrito após tomar conhecimento do comportamento mal educado de torcedores brancos, da elite brasileira, na Copa do Mundo da Rússia 2018.


Auto Retrato - Estocolmo (canon 760D)

Venho aqui deixar uma reflexão que me toma após estar morando 7 meses na Suécia: "Pra Ser Mulher no Brasil tem que ser muito firme, guerreira e atenta!" Isso não é uma crença... é uma auto-observação que faço ao me colocar corporificada em outra cultura. Trabalho em pré-escolas com crianças de 2 à 7 anos. Os meninos tem o direito de usar rosa, de ir pra escola de vestido de passar o dia com sapato de princesa na escola e ninguém fala nada, nem insinua, se quer olha diferente ou pressupõe sua preferência sexual futura . Nas ruas não recebo nenhum comentário sobre minha bunda, meu peito ou outras coisas que quem é mulher no Brasil sabe ... e isso não é porque nos meus 36 anos eu deixei de ser uma mulher interessante - modéstia a parte me sinto muito melhor hoje do que já fui - mas porque a cultura daqui não comprime a mulher como um objeto de conquista ou um pedaço de carne a ser consumido - seja nas revistas, na TV, nas ruas ou na rede dos "predadores". Aqui, mulheres podem usar short muito curto no verão sem que isso seja considerado uma provocação, que justifique até abusos de diversas ordens, como já ouvimos no Brasil. Não falo daqui para enaltecer a Suécia pois amo ser essa mistura de preto, branco, índio e sabe-se lá o que mais, amo ser brasileira, amo nossa cultura popular (danças, música, comidas, contos, arte, etc) e sinto saudade do sorriso rasgado na face das pessoas!

Mas confesso que me emociono, por exemplo, ao ver meninas (principalmente entre 10 e 15 anos), podendo ser meninas, sem que sejam abusadas com palavras, olhares e até mesmo invasões físicas. Desde os primeiros sinais de puberdade apontados nos meus seios, isso já era comentário nas ruas. Hoje, no meu corpo, percebo o que se comprimiu com esta invasão que senti e sinto ao ser mulher no Brasil onde além de violências de diversos níveis, temos que nos defender da violência institucionalizada contra a potência da mulher Brasileira. Eu, tendo sido atriz desde 11 anos de idade, ouvi aos 25 anos que estava ficando velha e tinha que me reinventar para "acontecer" na mídia. Nesse dia entendi que podia ter talento e dedicação mas que não tinha vocação para compactuar com esta cultura de abuso à infância e incentivo à "ninfetaria" - nesse dia, precisei declarar uma luta de paz contra a cultura abusiva já introjetada nas minhas veias, precisei realmente me reinventar e me reinvento, pois vida é movimento!

Aqui na Suécia, me alegro ao ver mulheres de todas as idade podendo transparecer suas idades em quaisquer mídias, podendo estar na mesa redonda discutindo futebol com os homens sendo tratadas com respeito e dignidade nas ruas, bares, etc. Aqui experimento uma sensação de expansão, não preciso me esconder ou ir para o outro extremo de precisar estampar minha bunda na revista e ganhar uma grana por isso como troféu de sucesso e poder. Com todo respeito a todas as mulheres que já pousaram nuas, entendam: "Não se trata de puritanismo; acho o corpo humano uma coisa linda, digno de ser admirado, tocado e sentido mesmo que isso signifique apenas um instante ", mas o que venho aqui é convidar para uma reflexão do que essa opressão ética, estética, poética, social e filosófica, pode causar aos nossos corpos, mente, emoção e espírito. O quanto aquilo que não paramos para refletir pode afetar nossas relações e nossa vida diária. A escravidão da idade, beleza, da forma... da aprovação do outro... e por aí vai... Então eu te pergunto: O que te escraviza? O que te liberta? O que te permite sair deste paradigma da dualidade e Ser a Beleza Movente e Única que cada um é?!

Escrevo este texto e fico feliz se leu até aqui, pois parei o meu dia pois me expressar virou uma necessidade diante da vergonha que senti ao saber do comportamento de torcedores brasileiros na Rússia. Isso me fez pensar: "Caramba, que difícil ser mulher no Brasil", como é bom poder ser abordada pelo que você pensa, sente e é, sem que isso tenha um interesse de posse por trás; o que na maioria das vezes até entorpece a escuta verdadeira. Sinceramente, não desejo que estes homens sejam punidos, desejo que a sociedade brasileira receba mais Educação! (incluindo principalmente a elite brasileira que, de um modo geral, tem acesso a universidades e outras culturas e se mostram sem educação e respeito ao outro).

Esse texto não se trata de uma generalização. Envio meu sincero respeito e conexão à todas as pessoas que sustentam uma mudança de paradigmas trabalhando para a profunda libertação do Ser Humano desta mentalidade escravocrata, dominadora e consumidora/predadora. Que todos os brasileiros possam saber no corpo que as novelas (com todo respeito a todas as pessoas deste ofício) são construídas, em sua maioria, pelo modelo melodramático, no qual o Bem e o Mal são sempre antagônicos. A vida real é bem mais complexa que isso... E quem se permite aprofundar no auto-conhecimento sabe que esta oposição precisa ser vencida dentro de si, à partir da nossa consciência, hábitos e atenção plena. Então concluo dizendo: "Para ser Mulher ou Homem (independente das preferências sexuais e cor) em qualquer lugar do mundo é preciso estar firme e atento, porque a teia da ilusão é grande". Desejo, com todo o meu corpo, que todos os seres possam se libertar de tudo o que os aprisionam e reencontrar o paraíso em si - que não é nem Bom nem Mal, sagrado ou profano, alegre ou triste, simplesmente É!


(Agradecimento à todas as curtidas e comentário no facebbook que me apoiam a não mais esconder quem eu sou e o que penso. Grata!)

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